Eis uma breve antologia de nossa tradução de Lucrécio,
em seis trechos retirados, cada um, de um dos seis livros que compõem o
monumental Da Natureza das Coisas,
que constituirá o primeiro volume do PROJETO POETAS LATINOS. Do Livro 1, o
talento bucólico do autor descreve um belo quadro campestre para ilustrar a
permanente renovação das coisas. Do Livro 2, esse arguto observador da psique
humana capta o espanto dos homens diante de coisas novas e, após se acostumarem
a elas, seu consequente desinteresse. Do Livro 3, o tédio de viver, o medo de
morrer e a permanente insatisfação que abate aqueles que não perseguem um
sentido produtivo para a existência. O Livro 4 termina com uma larga reflexão
sobre o amor, focada principalmente em suas ciladas e perigos, para os quais o
autor nos alerta. O trecho escolhido recapitula justamente as decepções de quem
mergulha de cabeça no amor desvairadamente. A segunda parte do Livro 5 trata da
vida humana na terra; dela extraímos o trecho em que Lucrécio descreve o
surgimento das leis e acordos, condição essencial para o homem poder viver em
sociedade de forma razoável. O Livro 6, finalmente, trata dos fenômenos da
natureza; dele, extraímos a divertida redução ao absurdo que Lucrécio efetua,
contra a crença então popular de que Júpiter disparava os raios para castigar
os homens: as perguntas que ele vai fazendo vão pouco a pouco demonstrando o
quão insensata é essa crença, e que um simples exame dos fatos permite presumir
a existência de leis na natureza que regem os seus fenômenos.
Acácio Luiz Santos.
I,250-264.
Da geração e morte das coisas
E
cessam as chuvas enfim, tão logo as lançou o pai éter 250
precipitadas
no fértil regaço da suave mãe terra.
E
as esplêndidas messes despontam e os ramos verdejam
sobre
as árvores que se elevam de frutos repletas,
de
onde a índole nossa e a das bestas então se alimenta,
―
e vemos, por isso, a cidade jocunda florir de crianças 255
e
de frondíferas selvas ao regozijar de aves novas;
e
fatigadas ovelhas por sobre as ledas pastagens
os
corpos lanígeros ’stendem, e a láctea seiva candente
instila
das túrgidas tetas, e a prole novata de instáveis
membros
feliz se distrai a brincar pelos tenros gramados, 260
inebriadas
de leite estreme as mentes noviças.
Todas
as coisas jamais, portanto, perecem de todo:
quando
de outra uma se alimenta, restaura-a a natura,
que
não permite que uma se gere sem a morte de outra.
II,1023-1043(+1029a).
Da maravilha das coisas novas
Ora,
conforme a vera razão, o ânimo empenha,
que
um novo assunto se esforça com ênfase por aos ouvidos
teus
chegar e um novo esquema de coisas mostrar-te. 1025
Nada
tão fácil existe, porém, que, à primeira vista,
não
pareça difícil de crer; e, da mesma maneira,
nem
tão grandiosas e maravilhosas são as coisas, de fato,
que
a admiração de todos não mingue paulatinamente, 1029
<do
que, conforme me lembro, bastantes exemplos notamos.> 1029a
Inicialmente,
a coloração clara e pura do céu 1030
e
as coisas que ele contém ― passageiras estrelas oniúres,
e
além delas, a lua, e o sol de esplêndido lume:
se
tudo isso aos mortais fosse inédito e assomasse
de
improviso, se subitamente ficasse exposto,
o
que, mais que isso, seria julgado enfim maravilhoso, 1035
ou
o que, antes disso, as gentes teriam crido menos possível?
Nada,
opino: pois isso teria então sido admirável.
Nota
no entanto que todos, já fartos de vê-los em excesso,
aos
do céu templos lúcidos ora sequer os contemplam.
Cessa
portanto de às coisas temer pela sua novidade, 1040
e
de afastar a razão de teu ânimo. Com mais agudo
juízo,
estuda-as no entanto e, se forem então verdadeiras,
cede
a elas; porém, forem falsas, ataca-as sem pena.
III,1053-1075.
Da fuga de si mesmo
Caso
os homens pudessem ― quando se veem sentindo
fundo
no ânimo u’a carga existir, que do peso os fatiga ―
compreender
― por que causas então se produza, e como 1055
conste,
qual melas e males, no peito em grã quantidade ―,
a
vida jamais passariam como os vemos fazer geralmente,
nunca
sabendo o que querem de fato e sempre buscando
ansiosos
mudar de lugar como se isso os livrasse do ônus.
E
esse que sai amiúde de seus palácios afora, 1060
aborrecido
de em casa ficar, a eles súbito torna,
já
que, lá fora, em nada se sente melhor do que antes.
Precipitado,
à vila ele corre, atiçando os garranos,
como
se fosse apagar, em sua casa, uns tetos em brasa.
Mas,
atingido o limiar de sua vila, num instante boceja, 1065
ou
se entrega ao sono, buscando alívio no oblívio,
ou
se despede abrupto e à urbe retorna a revê-la.
Assim,
cada um de si mesmo se afasta; porém, se percebe
que
não se pode escapar de si próprio, forçado a aturar-se,
odeia
tudo isso, que, enfermo, não atina co’ a causa da doença. 1070
Pois,
se sabida, deixados de lado os outros assuntos,
procurar-se-ia
primeiro estudar a natura das coisas,
já
que é da eternidade, e não de uma única hora,
o
estado de que provém tudo, e que aos mortais de toda
época
cabe viver todo o evo que resta até a morte. 1075
IV,1121-1140.
Consequências maléficas do amor
A
isso acrescenta que às forças esgotam e de esforços perecem;
a
isso acrescenta que, ao aceno de outrem, derrete-se a idade;
e
os deveres relaxam e a reputação se descuida; 1124
e
em babilônios tapetes se gasta inteira a fortuna; 1123
e
aos pés mimoseiam unguentos e belas sandálias siciônias, 1125
e,
com esmero, esmeraldas imensas de brilho esverdeado
são
incrustradas em ouro; e o vaso marinh’ se consome,
assídua
e fatigadamente, bebendo-se os suores de Vênus.
Vão-se
os bens bem adquiridos dos pais em diademas e mitras,
e
se convertem, às vezes, em pala alindésia e ceósia. 1130
Belos
banquetes, notáveis de víveres e dec’rações,
jogos,
cortejos de taças, unguentos, coroas, grinaldas ―
tudo
em vão, que, da fonte de inesgotáveis delícias,
algo
de amargo goteja e, das flores, as dores se exalam:
ou
quando acaso o ânimo, enfim cônscio, se arrepende 1135
de
um evo gasto em inércia e desperdiçado em orgias;
ou
porque uma palavra ambígua, lançada ao partir-se,
no
coração deixa um fixo desejo de fogo ardendo;
ou
que suspeita de ver atirados olhares a outro
e
julga que vê em seu vulto um vestígio de burla perpétuo. 1140
V,1136-1160.
Da instituição das leis
Pois
e depois, tombados os reis, jazia abatida
a
majestade antiga dos tronos e cetros soberbos
e
o insigne emblema nas testas reais maculado
sob
as pisadas do vulgo plangia sua grande honraria,
pois
com volúpia esmagavam agora o que antes temiam. 1140
Eram
rendidas as coisas, assim, em suprema mixórdia,
enquanto
buscavam tomar o império e a soberania.
E,
finalmente, aprendeu-se depois a magistratura
e
o direito se constituiu para as leis se observarem,
pois
a espécie humana, exausta da vida violenta, 1145
enfraquecia
de inimizades; e, espontaneamente,
sub˙meteu-se
portanto às leis e à estrita justiça;
que
antes alguém, pela ira tomado, buscava medidas
bem
mais cruéis do que ora permitem as leis razoáveis,
’té
que da vida em raivosa vingança enfim se cansaram. 1150
Logo,
o medo das penas macula os prêmios da vida,
pois
a injúria e a violência enredam aqueles que as lançam
e
finalmente terminam por se reverter contra eles.
Tão-pouco
é fácil passar uma plácida e calma existência
a
quem viola acordos e pactos de paz com seus atos. 1155
Bem
que pareça enganar as estirpes humana e divina,
nunca
existe a certeza de, ao mal, ocultar para sempre.
E
dizem que muitos, amiúde, falando durante o sono
ou
delirando de doença, acabaram enfim por trair-se
e
revelaram seus atos malvados, há tempos ocultos. 1160
VI,387-422.
Contra serem os raios obras de Júpiter
Mas,
se são Júpiter, e demais deuses, os que aos fulgentes
templos
celestes com ruído terrífico então estremecem,
e qualquer
um deles o fogo arremessa aonde deseje:
por
que, aos que um crime hediondo não é caso de repug˙nância, 390
um
ferimento fatal com o raio não fazem, que exale
chamas
do peito permeado (aos mortais, uma amarga lição!),
e,
ao invés disso, aquele que nada de torpe jamais consumou,
ora
s’ consome em chamas, embora inocente, apanhado
subitamente
do fogo e do turbilhão celeste? 395
e
por que locais isolados atingem, atirando a esmo?
acaso
exercitam o braço, ou dos músculos testam a força?
por
que permitem o dardo paterno ser desperdiçado?
não
seria melhor contra o ímpio inimigo usá-lo?
por
que jamais, quando límpido o céu inteiro se encontra, 400
Júpiter
torra a terra com raio e rugido intenso?
ou
ele aguarda o monte de nuvens reunir-se abaixo
para
descer até elas e, assim, atirar mais de perto?
e
por que razão o arremessa ao mar? aborrecem-no os peixes,
ou,
vagamente, as vagas e os líquidos campos flotantes? 405
se,
mesmo a esmo, ele quer que evitemos o golpe do raio,
por
que evita que nós o notemos quando ele os dispara?
mas
se deseja atacar quando estamos incautos do fogo,
por
que estrondeia tamanho alarido, que a nós nos avisa,
e
trevas, e frêmito, e horrível rugido, antes disso, instiga? 410
e
como consegues tu crer que ele, a um tempo, de muitas partes,
raios
dispare? ou ousas suster que jamais ocorreu ―
muitos
golpes, em várias partes, num instante caírem?
(Não
só ocorreu com frequência, mas é necessário que ocorra,
pois
como a chuva costuma cair em diversas regiões, 415
devem
os raios cair a um tempo e, também, em profusão.)
e
enfim, por que ao próprio templo augusto derruba com gosto,
e
aos sítios excelsos dos deuses não cessa de arriar com o raio,
e
quebra as bem feitas imagens marmóreas, dos deuses e suas,
e,
com violenta pancada, arruína o ícone honrado? 420
por
que, em geral, os locais elevados ataca e, além disso,
muitos
vestígios ígneos notamos nos cumes dos montes?
Parabéns pelo belíssimo trabalho, Acácio. Seu blog é um refúgio em meio ao Caos que nos assalta diariamente... Vida longa ao projeto.
ResponderExcluirOlá, Júlio! Fico muito feliz por você ter gostado do blog, e lhe agradeço por seu comentário carinhoso e encorajador. Seja sempre bem-vindo.
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