
Eis aqui uma amostra de nossa tradução das Canções de Catulo, que fará parte do
segundo volume do PROJETO POETAS LATINOS. O poema 8 descreve a luta de Catulo
para fazer frente à partida da amada (provavelmente Lésbia) e manter-se firme.
Teria ele conseguido? O poema 49 faz a apologia a uma outra glória da literatura
latina, ninguém menos que Marco Túlio Cícero. Os longuíssimos poemas do livro,
situados entre as Ninharias em versos
variados e as Elegias, fazem-se
representar por um trecho do Epitalâmio
de Júnia e Mânlio: a segunda seção, dirigida à deusa do amor, Vênus.
Finalmente, seguem-se duas elegias: em 73, um comovente lamento contra a
ingratidão inesperada; e, em 109, um belíssimo voto de amor, matriz de tantas
declarações clássicas na tradição literária, que nos chegam até a modernidade,
com nosso Vinicius de Moraes. Complementam essa pequena seleta três poemas
extraídos de Priapea (que, mantendo o
espírito irreverente do livro, intitulamos em português Canções do Cacete), coletânea de 80 poemas de autoria anônima
dedicados à divindade rural Priapo, muito popular na cultura romana,
especialmente entre a gente do campo. Esse peculiar divo, representado
geralmente por uma figura tosca e atarracada com o membro fálico
desproporcional, permite aos poetas abordá-lo de forma direta e obscena, sem
muitos convencionalismos, e é interessante por seus jogos de duplo sentido, sua
sexualidade lasciva e sarcástica, suas alfinetadas contra a hipocrisia da,
digamos, “gente séria”, e, finalmente, sua representação da autoridade rural
suprema (e muitas vezes cruel) dos donos de propriedade.
Acácio Luiz Santos.
CANÇÕES
DE CATULO:
8.
A si próprio
Catulo
parvo, afasta a estupidez, néscio:
o
que perdeste entende que partiu mesmo.
Outrora
sobre ti brilharam sóis claros,
quando
ias aonde a fêmea a ti guiava,
de
nós amada quanto não o será outra. 5
E
muitos gozos usufruíste aí co’ ela,
que
os desejavas e ela não os desprezava:
decerto
sobre ti brilharam sóis claros.
Ora
ela não o quer; e, incapaz, cedes.
Nem
à evasiva sigas, nem infeliz vivas; 10
resiste
com empenho pertinaz: firma!
Menina,
vai! Catulo agora está firme,
e a
ti não irá buscar, nem te implorar logro.
Ir-te-á
doer quando a ti ninguém rogue.
Que
vida aguarda a ti, cruel e má fêmea? 15
E
quem te irá querer? ou te julgar bela?
a
quem irás amar? de quem dirás teu?
a
quem irás beijar? a quem morder lábios?
Mas
tu, Catulo, permanecerás firme…
49.
A Marco Túlio Cícero
Tu,
o ― da estirpe de Rômulo ― mais fluente,
ó
Marco Túlio, dos de outrora, de agora,
e
de ora em diante, que vieram, vêm e virão:
graças
máximas Catulo te envia,
envia
ele, o pior poeta de todos; 5
tanto
é ele o pior poeta de todos,
quanto
és tu o melhor jurista de todos.
61.
Epitalâmio de Júnia e Mânlio
2 - Sem ti, Vênus
Sem
ti, Vênus, ninguém colher
prendas
pode que boa fa-
ma
autorize; porém o po-
de,
se o queres. E à deusa, quem
comparar-se ousaria? 65
E,
sem ti, não existe ca-
sa
capaz de petizes ter,
que
confortem aos pais. Mas po-
de,
se o queres. E à deusa, quem
comparar-se ousaria? 70
Toda
terra onde faltem teus
ritos
não pode, enfim, prover
guardiões
aos confins; mas sim,
se
o quiseres. E à deusa, quem
comparar-se ousaria? 75
73.
Do ingrato
Nunca
esperes, de alguém, que admita teu merecimento,
tão-pouco
julgues que possa tornar-se piedoso.
Tudo
é ingrato: o bem-feito, de fato, não rende proveito;
pelo
contrário, ainda mais ofende e magoa.
Isso
comigo, a quem ninguém mais grave e amargo oprime, 5
que
esse, que até então me teve por único amigo.
109.
A ela, sua vida
A
mim, minha vida, estende um amor prazeroso, que, nosso,
exista
entre nós neste instante, e sempre persista.
Deuses!
se ela o promete, que seja, então, verdadeiro
e
que de ânimo honesto e sincero o diga;
e
que a nós se conceda que, por toda a vida, perdure 5
eterno
este voto, de terna afeição consagrado.
CANÇÕES
DO CACETE:
7.
“Quando demando, uma letra se troca”
Quando
demando, uma letra se troca; assim, se te debando,
grito:
“Debunda,
já!” Acalma, e cumpre-me a ordem.
8.
“Afastai-vos daqui, matronas”
«Afastai-vos
daqui, matronas castas,
é-vos
torpe impudicos versos lerdes.»
Mas
não dão um tostão e avançam firme:
com
certeza conhecem bem e apreciam
com
enorme regalo a rôla grande. 5
9.
“Indagas por que minha parte obscena”
Indagas
por que minha parte obscena está sempre despida?
Inquire
por que nenhum deus seu emblema oculta!
Tem
o regente do mundo o raio e o ostenta às claras,
e
não se furta o tridente ao deus marinho.
Nem
Marte oculta a espada com que seu poder se garante; 5
nem
esconde Palas a lança no tépido flanco.
Ora,
envergonha a Febo portar suas flechas douradas?
sói
trazer às ocultas Diana sua aljava?
Ora,
sonega Alcides as toras das clavas nodosas?
põe
sob a túnica o deus alado sua vara? 10
Vê-se
estender Baco a veste à frente do tirso estreito?
ou,
com a chama encoberta, a ti, ó Amor, vê-se?
Não
se incrimine a mim, pois, trazer sempre exposta a piroca:
se
me declina o dardo, estarei desarmado.
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