Boas-vindas!

Bem-vindos ao blog PROJETO POETAS LATINOS!


Criado por nossa firma, Cyclicus Editorial, o PROJETO tem como objetivo inicial publicar, em volumes uniformes, as obras completas que nos chegaram dos poetas do período de maior efervescência da literatura latina clássica, isto é, os séculos I a.C. e I d.C., de Lucrécio a Juvenal. Dentro desse objetivo, lançamos o blog homônimo para podermos divulgar o PROJETO e manter o leitor a par das novidades.


Se é lícito defender o ineditismo e a relevância de nosso empreendimento, observaremos apenas que jamais algo parecido foi tentado na história editorial brasileira. Já se fizeram anteriormente, como todos sabemos, várias traduções de certos autores ou de obras específicas, em prosa ou em versos, seguindo os mais diversos critérios. No entanto, jamais testemunhamos uma iniciativa que colocasse todos esses nomes clássicos de uma das matrizes vitais de nossa cultura, e todo o seu espólio restante, ao alcance do leitor brasileiro, reunindo-os em uma coleção uniforme, com texto bilíngue, e empregando critérios definidos de tradução capazes de manter a fluência, a dinâmica e a expressividade métrico-rítmica dos versos originais.


Desde já, agradecemos a todos pelo interesse e apoio.


Acácio Luiz Santos.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Catulo: pequena antologia (+ 3 poemas anônimos priapeus)


Eis aqui uma amostra de nossa tradução das Canções de Catulo, que fará parte do segundo volume do PROJETO POETAS LATINOS. O poema 8 descreve a luta de Catulo para fazer frente à partida da amada (provavelmente Lésbia) e manter-se firme. Teria ele conseguido? O poema 49 faz a apologia a uma outra glória da literatura latina, ninguém menos que Marco Túlio Cícero. Os longuíssimos poemas do livro, situados entre as Ninharias em versos variados e as Elegias, fazem-se representar por um trecho do Epitalâmio de Júnia e Mânlio: a segunda seção, dirigida à deusa do amor, Vênus. Finalmente, seguem-se duas elegias: em 73, um comovente lamento contra a ingratidão inesperada; e, em 109, um belíssimo voto de amor, matriz de tantas declarações clássicas na tradição literária, que nos chegam até a modernidade, com nosso Vinicius de Moraes. Complementam essa pequena seleta três poemas extraídos de Priapea (que, mantendo o espírito irreverente do livro, intitulamos em português Canções do Cacete), coletânea de 80 poemas de autoria anônima dedicados à divindade rural Priapo, muito popular na cultura romana, especialmente entre a gente do campo. Esse peculiar divo, representado geralmente por uma figura tosca e atarracada com o membro fálico desproporcional, permite aos poetas abordá-lo de forma direta e obscena, sem muitos convencionalismos, e é interessante por seus jogos de duplo sentido, sua sexualidade lasciva e sarcástica, suas alfinetadas contra a hipocrisia da, digamos, “gente séria”, e, finalmente, sua representação da autoridade rural suprema (e muitas vezes cruel) dos donos de propriedade.

Acácio Luiz Santos.

CANÇÕES DE CATULO:

8. A si próprio

Catulo parvo, afasta a estupidez, néscio:
o que perdeste entende que partiu mesmo.

Outrora sobre ti brilharam sóis claros,
quando ias aonde a fêmea a ti guiava,
de nós amada quanto não o será outra. 5
E muitos gozos usufruíste aí co’ ela,
que os desejavas e ela não os desprezava:
decerto sobre ti brilharam sóis claros.

Ora ela não o quer; e, incapaz, cedes.
Nem à evasiva sigas, nem infeliz vivas; 10
resiste com empenho pertinaz: firma!

Menina, vai! Catulo agora está firme,
e a ti não irá buscar, nem te implorar logro.
Ir-te-á doer quando a ti ninguém rogue.
Que vida aguarda a ti, cruel e má fêmea? 15
E quem te irá querer? ou te julgar bela?
a quem irás amar? de quem dirás teu?
a quem irás beijar? a quem morder lábios?

Mas tu, Catulo, permanecerás firme…



49. A Marco Túlio Cícero

Tu, o ― da estirpe de Rômulo ― mais fluente,
ó Marco Túlio, dos de outrora, de agora,
e de ora em diante, que vieram, vêm e virão:
graças máximas Catulo te envia,
envia ele, o pior poeta de todos; 5
tanto é ele o pior poeta de todos,
quanto és tu o melhor jurista de todos.



61. Epitalâmio de Júnia e Mânlio
                   2 - Sem ti, Vênus

Sem ti, Vênus, ninguém colher
prendas pode que boa fa-
ma autorize; porém o po-
de, se o queres. E à deusa, quem
         comparar-se ousaria? 65

E, sem ti, não existe ca-
sa capaz de petizes ter,
que confortem aos pais. Mas po-
de, se o queres. E à deusa, quem
         comparar-se ousaria? 70

Toda terra onde faltem teus
ritos não pode, enfim, prover
guardiões aos confins; mas sim,
se o quiseres. E à deusa, quem
         comparar-se ousaria? 75



73. Do ingrato

Nunca esperes, de alguém, que admita teu merecimento,
tão-pouco julgues que possa tornar-se piedoso.
Tudo é ingrato: o bem-feito, de fato, não rende proveito;
pelo contrário, ainda mais ofende e magoa.
Isso comigo, a quem ninguém mais grave e amargo oprime, 5
que esse, que até então me teve por único amigo.



109. A ela, sua vida

A mim, minha vida, estende um amor prazeroso, que, nosso,
exista entre nós neste instante, e sempre persista.
Deuses! se ela o promete, que seja, então, verdadeiro
e que de ânimo honesto e sincero o diga;
e que a nós se conceda que, por toda a vida, perdure 5
eterno este voto, de terna afeição consagrado.



CANÇÕES DO CACETE:

7. “Quando demando, uma letra se troca”

Quando demando, uma letra se troca; assim, se te debando,
grito: “Debunda, já!” Acalma, e cumpre-me a ordem.



8. “Afastai-vos daqui, matronas”

«Afastai-vos daqui, matronas castas,
é-vos torpe impudicos versos lerdes.»
Mas não dão um tostão e avançam firme:
com certeza conhecem bem e apreciam
com enorme regalo a rôla grande. 5



9. “Indagas por que minha parte obscena”

Indagas por que minha parte obscena está sempre despida?
Inquire por que nenhum deus seu emblema oculta!
Tem o regente do mundo o raio e o ostenta às claras,
e não se furta o tridente ao deus marinho.
Nem Marte oculta a espada com que seu poder se garante; 5
nem esconde Palas a lança no tépido flanco.
Ora, envergonha a Febo portar suas flechas douradas?
sói trazer às ocultas Diana sua aljava?
Ora, sonega Alcides as toras das clavas nodosas?
põe sob a túnica o deus alado sua vara? 10
Vê-se estender Baco a veste à frente do tirso estreito?
ou, com a chama encoberta, a ti, ó Amor, vê-se?
Não se incrimine a mim, pois, trazer sempre exposta a piroca:
se me declina o dardo, estarei desarmado.

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