Boas-vindas!

Bem-vindos ao blog PROJETO POETAS LATINOS!


Criado por nossa firma, Cyclicus Editorial, o PROJETO tem como objetivo inicial publicar, em volumes uniformes, as obras completas que nos chegaram dos poetas do período de maior efervescência da literatura latina clássica, isto é, os séculos I a.C. e I d.C., de Lucrécio a Juvenal. Dentro desse objetivo, lançamos o blog homônimo para podermos divulgar o PROJETO e manter o leitor a par das novidades.


Se é lícito defender o ineditismo e a relevância de nosso empreendimento, observaremos apenas que jamais algo parecido foi tentado na história editorial brasileira. Já se fizeram anteriormente, como todos sabemos, várias traduções de certos autores ou de obras específicas, em prosa ou em versos, seguindo os mais diversos critérios. No entanto, jamais testemunhamos uma iniciativa que colocasse todos esses nomes clássicos de uma das matrizes vitais de nossa cultura, e todo o seu espólio restante, ao alcance do leitor brasileiro, reunindo-os em uma coleção uniforme, com texto bilíngue, e empregando critérios definidos de tradução capazes de manter a fluência, a dinâmica e a expressividade métrico-rítmica dos versos originais.


Desde já, agradecemos a todos pelo interesse e apoio.


Acácio Luiz Santos.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Um discípulo hesitante


Lucrécio (Titus Lucretius Carus). Da Natureza das Coisas.
I,80-83
E isto receio de tais assuntos: que acaso te creias 80
a inserir na razão alguns ímpios princípios e à via
da iniquidade descer; mas a religião sicária
tem perpetrado ― ela mesma, de fato ― malévolos feitos.

O poema Da natureza das coisas é escrito para um destinatário específico: Mêmio, ou melhor, Gaio Mêmio, orador e tribuno (foi eleito Tribuno da Plebe em 66 a.C.), muito provavelmente protetor e patrono de Lucrécio, e que, como tantos homens públicos de Roma, buscava estudar as várias escolas filosóficas para extrair delas lições práticas para a vida pública. Sendo homem de ambições políticas, era natural, portanto, que Mêmio, apesar de seu interesse na então influente escola epicurista em Roma, se sentisse pouco confortável diante das entusiasmadas afirmativas de seu amigo e mestre Lucrécio, especialmente no tocante à não participação e à não intervenção dos deuses em nosso mundo e aos violentos ataques contra ritos cruéis efetuados pelos homens em nome da religião. Pois para alguém como Mêmio, habituado à convivência com a elite política de Roma, a visão ateísta (em seu sentido primordial, de total afastamento, ou desinteresse, dos deuses pelos nossos negócios) decantada por Lucrécio deveria equivaler a um verdadeiro convite à iniquidade e à perda completa dos valores que norteariam a existência social. A essa permanente inquietação de Mêmio, Lucrécio responderá, com admoestações e exemplos, que é justamente o homem, por medo da morte e de castigos eternos, que perpetra, em nome da religião, os piores feitos. De qualquer modo, apesar de seu compreensível espanto e hesitação, e de muito provavelmente ter moderado certos pontos da doutrina epicúrea em sua vida prática, Mêmio não desanimou de estudá-la, como dão testemunho as várias menções que Lucrécio faz a ele como interlocutor, espalhadas nos seis livros de Da natureza das coisas, além de seu carinho e demonstração de amizade pelo patrono e discípulo, que ele fez questão de deixar registrados na obra.

Tradução e comentário:
Acácio Luiz Santos.

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