Boas-vindas!

Bem-vindos ao blog PROJETO POETAS LATINOS!


Criado por nossa firma, Cyclicus Editorial, o PROJETO tem como objetivo inicial publicar, em volumes uniformes, as obras completas que nos chegaram dos poetas do período de maior efervescência da literatura latina clássica, isto é, os séculos I a.C. e I d.C., de Lucrécio a Juvenal. Dentro desse objetivo, lançamos o blog homônimo para podermos divulgar o PROJETO e manter o leitor a par das novidades.


Se é lícito defender o ineditismo e a relevância de nosso empreendimento, observaremos apenas que jamais algo parecido foi tentado na história editorial brasileira. Já se fizeram anteriormente, como todos sabemos, várias traduções de certos autores ou de obras específicas, em prosa ou em versos, seguindo os mais diversos critérios. No entanto, jamais testemunhamos uma iniciativa que colocasse todos esses nomes clássicos de uma das matrizes vitais de nossa cultura, e todo o seu espólio restante, ao alcance do leitor brasileiro, reunindo-os em uma coleção uniforme, com texto bilíngue, e empregando critérios definidos de tradução capazes de manter a fluência, a dinâmica e a expressividade métrico-rítmica dos versos originais.


Desde já, agradecemos a todos pelo interesse e apoio.


Acácio Luiz Santos.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Lucrécio e os deuses


Lucrécio (Titus Lucretius Carus). Da Natureza das Coisas.
I,44-49
A natureza dos deuses inteira requer, por si mesma, 44
que seja fruída de vida imortal em suprema concórdia, 45
longe de nossos assuntos, de tais afastada e excluída;
e, isenta de dor por completo, e também de perigos isenta,
dona dos próprios recursos, de nós carecida em nada,
nem é cativa de dádivas, nem é tomada de ira.

A tarefa que Lucrécio se impõe em sua obra magna, Da natureza das coisas, é, basicamente, explicar em versos os fundamentos da doutrina epicurista a seu discípulo Mêmio, empregando todos os recursos poéticos e retóricos cabíveis, oriundos de sua rica formação cultural. Para realizá-la, Lucrécio precisa no entanto convencer Mêmio a aceitar quatro ideias: os deuses possuem uma natureza fundamentalmente diversa da que rege este nosso mundo; por serem imortais, invulneráveis e autossuficientes, eles não se sujeitam a dores nem perigos; eles ignoram por completo este nosso mundo e absolutamente não se interessam por ele; finalmente, é inútil ao homem tentar agradá-los para obter préstimos ou apaziguá-los para evitar castigos. Tendo sempre em mente a cultura politeísta vigente na civilização romana e sua importância para a vida moral, social e política de seus cidadãos, podemos avaliar a dificuldade de Lucrécio em trazer uma ordem de coisas tão contrária às ideias correntes sobre os deuses. Como ele resolverá essa dificuldade? Debatendo-as longamente, uma a uma? Desafiando a ordem constituída, acusando-a de equivocada? Nada disso. Em vez de discutir longamente essas ideias cruciais para o propósito da obra, ele as reúne logo antes da exposição em seis linhas sucintas, apresentando-as sem preâmbulos, para um maior impacto no leitor. Tomado de surpresa, este irá percebendo, no decorrer da leitura, o sentido maior delas: para o homem alcançar a felicidade, alvo último do pensamento epicurista, ele deve restringir seu estudo à natureza das coisas do mundo, do seu mundo e, assim, afastar o temor da morte e de castigos eternos. O homem, portanto, não precisa temer os deuses, nem cometer atos horrendos, como sacrifícios humanos, para obter favores deles. Por outro lado, a busca razoável de felicidade fará com que o homem atinja uma beatitude e tranquilidade de ânimo digna dos deuses. Assim, mais uma vez, testemunhamos o brilhantismo poético e retórico de Lucrécio, capaz de traduzir todo um sistema de pensamento em imagens impactantes de ressonâncias cosmológicas.

Tradução e comentário:
Acácio Luiz Santos.

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