Lucrécio
(Titus Lucretius Carus). Da Natureza das
Coisas.
I,54-61.
Ora
sem mora a suprema ― do céu e dos deuses ― razão
a explicar principio e a origem das coisas explano: 55
como
a natura concebe as coisas, e acresce, e nutre,
e
como restaura o que anteriormente havia destruído;
e
como nós, à matéria e aos corpos gerantes das coisas
a
restaurar, com razão nomeamos sementes das coisas,
como
de outra maneira chamar costumamos a eles 60
corpos
primeiros, que deles primeiro existem as coisas.
Embora
o estudo da natureza em Lucrécio, como em seu mestre Epicuro, não seja um fim
em si mesmo, ele não deixa de ser imprescindível, pois constitui-se como um
meio para o homem compreender como chegar ao usufruto da verdadeira felicidade.
No primeiro livro de sua obra magna, ele procurará explicar os fundamentos e
condições a partir dos quais a natureza opera e, desde já, apresentará os
protagonistas da, por assim dizer, máquina do mundo: os átomos. Conforme a
lição de Demócrito de Abdera, estas partículas (que significam “indivisível” em
grego), são o fundamento eterno e infinito das coisas. Epicuro, por sua vez,
aceita a teoria atomista de Demócrito e, como tal, ela será desenvolvida em
versos por Lucrécio, que presta, aliás, mais de uma vez em seu poema, tributo a
Demócrito. Observemos que Lucrécio jamais emprega a palavra grega, preferindo
utilizar, para se referir aos átomos, uma variedade de termos: primeiros
princípios das coisas, primórdios das coisas, corpos gerantes das coisas,
sementes das coisas, corpos primeiros. Isso se torna para ele uma vantagem,
pois lhe permite, conforme a métrica o exige, preencher a medida do verso
através da seleção da variante mais adequada para cada caso, procedimento que
aliás seguimos em nossa tradução. Além disso, com essa opção, Lucrécio põe em
destaque não a mera propriedade física (a indivisibilidade) dos átomos, e sim a
funcionalidade deles na natureza, de se combinarem para gerar todas as coisas
existentes e, após algum tempo, de dissolverem seus arranjos e, novamente
livres, criarem outras coisas. À eternidade dos átomos, princípios de todas as
coisas existentes, opõe-se a transitoriedade de todas as coisas: tudo o que é
criado no mundo – e o próprio mundo! – em verdade terminará por se dissolver.
Destacando esta faceta dos átomos, o poeta Lucrécio prepara o espírito do
leitor para reconhecer a efemeridade das coisas e, assim, abandonar o medo de
morrer e buscar os verdadeiros prazeres da vida, no curto evo que cabe a cada
um e que não deve ser desperdiçado em vão.
Tradução e comentário:
Acácio
Luiz Santos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário