Boas-vindas!

Bem-vindos ao blog PROJETO POETAS LATINOS!


Criado por nossa firma, Cyclicus Editorial, o PROJETO tem como objetivo inicial publicar, em volumes uniformes, as obras completas que nos chegaram dos poetas do período de maior efervescência da literatura latina clássica, isto é, os séculos I a.C. e I d.C., de Lucrécio a Juvenal. Dentro desse objetivo, lançamos o blog homônimo para podermos divulgar o PROJETO e manter o leitor a par das novidades.


Se é lícito defender o ineditismo e a relevância de nosso empreendimento, observaremos apenas que jamais algo parecido foi tentado na história editorial brasileira. Já se fizeram anteriormente, como todos sabemos, várias traduções de certos autores ou de obras específicas, em prosa ou em versos, seguindo os mais diversos critérios. No entanto, jamais testemunhamos uma iniciativa que colocasse todos esses nomes clássicos de uma das matrizes vitais de nossa cultura, e todo o seu espólio restante, ao alcance do leitor brasileiro, reunindo-os em uma coleção uniforme, com texto bilíngue, e empregando critérios definidos de tradução capazes de manter a fluência, a dinâmica e a expressividade métrico-rítmica dos versos originais.


Desde já, agradecemos a todos pelo interesse e apoio.


Acácio Luiz Santos.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Matriz hínica e propósito didático


Lucrécio (Titus Lucretius Carus). Da Natureza das Coisas.
I,6-20
Deusa, de ti se afastam os ventos e as nuvens celestes,
e, ao teu advento, a teus pés variegada a terra suaves
flores estende; a ti as marítimas vagas sorriem,
e apaziguado o céu se ilumina com brilho difuso.
Logo que se anuncia o semblante primevo do dia, 10
e ora liberto vigora o favônio sopro nativo,
já as aéreas aves te saúdam, e tua chegada,
deusa, tocadas nas cordas cordiais pela tua vigência.
Tal como as feras perseguem ovelhas por ledas pastagens, 15
varam velozes correntes: assim à mercê de encanto 14
quem tu induzes te segue voraz a qualquer prazo ou plaga. 16
E finalmente por mares, e rios revoltos do monte,
pelas frondosas moradas das aves, e por verdes campos,
brando amor incutindo a todos no peito, tu intimas
que as gerações com vigor se propaguem conforme as espécies. 20

Após a invocação de abertura da obra, Lucrécio nos exibe seus dotes de poeta hínico. Vênus é aqui representada como o centro irradiador da harmonia do mundo. Ela chega e toda a natureza lhe sorri em resposta, reconhecendo sua prerrogativa de inspiradora da volúpia e da fertilidade: os ventos e as ondas se abrandam, a terra flori, o céu brilha e as aves cantam em sua honra. E nada mais justo: nenhum ser vivente escapa ao seu encanto, nem os homens, nem as feras, tão-pouco as aves e os habitantes das águas. E isso é, legitimamente, o mais profundo significado do divino panteão mitológico greco-romano. Os principais deuses simbolizam as vocações mais imprescindíveis ou inevitáveis da aventura humana. Honrá-los expressa, assim, nossa ânsia mais essencial, de que possamos fazer jus, ou fazer frente, a essas vocações e afirmar decididamente nosso ser nesta trajetória. Dessa forma, a matriz hínica se harmoniza com o propósito didático da obra: sermos dignos e partícipes dessa vocação para a volúpia. E, como Lucrécio irá expor, seguindo sua tão querida escola epicúrea, para obtermos êxito precisaremos satisfazer três condições. Inicialmente, estudar a natureza, buscando entender sua origem e suas regras. Além disso, apreciar o prazer com moderação: dominá-lo, e não ser dominado por ele. E finalmente, libertar-nos do temor religioso (em verdade, supersticioso) da morte, temor este que acarreta a perda de toda a alegria de viver.

Tradução e comentário:
Acácio Luiz Santos.

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