Boas-vindas!

Bem-vindos ao blog PROJETO POETAS LATINOS!


Criado por nossa firma, Cyclicus Editorial, o PROJETO tem como objetivo inicial publicar, em volumes uniformes, as obras completas que nos chegaram dos poetas do período de maior efervescência da literatura latina clássica, isto é, os séculos I a.C. e I d.C., de Lucrécio a Juvenal. Dentro desse objetivo, lançamos o blog homônimo para podermos divulgar o PROJETO e manter o leitor a par das novidades.


Se é lícito defender o ineditismo e a relevância de nosso empreendimento, observaremos apenas que jamais algo parecido foi tentado na história editorial brasileira. Já se fizeram anteriormente, como todos sabemos, várias traduções de certos autores ou de obras específicas, em prosa ou em versos, seguindo os mais diversos critérios. No entanto, jamais testemunhamos uma iniciativa que colocasse todos esses nomes clássicos de uma das matrizes vitais de nossa cultura, e todo o seu espólio restante, ao alcance do leitor brasileiro, reunindo-os em uma coleção uniforme, com texto bilíngue, e empregando critérios definidos de tradução capazes de manter a fluência, a dinâmica e a expressividade métrico-rítmica dos versos originais.


Desde já, agradecemos a todos pelo interesse e apoio.


Acácio Luiz Santos.

sábado, 19 de janeiro de 2019

Fim do recesso


Com muita alegria anunciamos aos seguidores e leitores do blog PROJETO POETAS LATINOS o fim antecipado de nosso recesso. Para comemorar o retorno às atividades, nossa próxima postagem, a ser publicada muito em breve, será uma segunda antologia poética de Lucrécio. Desde já agradecemos a todos pelo apoio e interesse neste empreendimento. Sejam sempre bem-vindos!

Acácio Luiz Santos.

sábado, 12 de janeiro de 2019

Aviso de recesso


Amigos leitores e seguidores do PROJETO POETAS LATINOS:

Por motivos alheios à nossa vontade, estaremos entrando, a partir de amanhã, em um recesso de aproximadamente dez dias, em que não poderemos, infelizmente, fazer novas postagens, nem responder prontamente a mensagens e comentários. De qualquer forma, durante todo esse período o blog segue normalmente ativo neste espaço, aberto às suas sempre muito bem vindas visitas. Desde já, comprometemo-nos, em nosso retorno, a compensar o breve período sem postagens e a responder prontamente todos os comentários e mensagens que tiverem sido enviados durante o recesso.

Não obstante, para que não passemos esta semana, que termina hoje, sem novos acordes da lira latina, deixamos abaixo nossa tradução do Livro 2 de Da Natureza das Coisas, versos 24-38, em que Lucrécio valoriza a vida simples e a tranquilidade bucólica, relembra-nos de que se pode ser feliz sem grandes luxos ou exuberâncias, e que riquezas, poderes e glórias, por si sós, não afastam de nós todos os males. Como sempre, esperamos que gostem e desejamos a todos uma boa leitura. Até breve,

Acácio Luiz Santos.

Lucrécio (Titus Lucretius Carus). Da Natureza das Coisas.
II,24-38
Se áureas imagens de impúberes não existem nas casas,
lâmpadas a segurar, ignescentes, nas mãos direitas, 25
por que forneçam as luzes nos ricos banquetes noturnos;
e não reluz de ouro a casa, nem brilha de prata tão-pouco;
e à cítara eco não fazem os áureos painéis laqueados ―
nesta ocasião, os moradores prostrados na grama macia,
junto às águas de um rio, à fronde das árvores altas, 30
não com abundantes recursos restauram alegres os corpos,
quando o tempo sorri e especialmente do ano
as estações aos gramados de flores viçosas matizam.
E as febres ardentes mais rápido não se despedem do corpo,
quer sobre estampas tecidas e manto escarlate-purpúreo 35
jazas, quer sobre um vulgar cobertor, em estertores, te estendas.
Ao nosso corpo, portanto, os mais caros tesouros em nada
o beneficiam, tão-pouco a nobreza ou a glória da corte
(..)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Catulo: pequena antologia (+ 3 poemas anônimos priapeus)


Eis aqui uma amostra de nossa tradução das Canções de Catulo, que fará parte do segundo volume do PROJETO POETAS LATINOS. O poema 8 descreve a luta de Catulo para fazer frente à partida da amada (provavelmente Lésbia) e manter-se firme. Teria ele conseguido? O poema 49 faz a apologia a uma outra glória da literatura latina, ninguém menos que Marco Túlio Cícero. Os longuíssimos poemas do livro, situados entre as Ninharias em versos variados e as Elegias, fazem-se representar por um trecho do Epitalâmio de Júnia e Mânlio: a segunda seção, dirigida à deusa do amor, Vênus. Finalmente, seguem-se duas elegias: em 73, um comovente lamento contra a ingratidão inesperada; e, em 109, um belíssimo voto de amor, matriz de tantas declarações clássicas na tradição literária, que nos chegam até a modernidade, com nosso Vinicius de Moraes. Complementam essa pequena seleta três poemas extraídos de Priapea (que, mantendo o espírito irreverente do livro, intitulamos em português Canções do Cacete), coletânea de 80 poemas de autoria anônima dedicados à divindade rural Priapo, muito popular na cultura romana, especialmente entre a gente do campo. Esse peculiar divo, representado geralmente por uma figura tosca e atarracada com o membro fálico desproporcional, permite aos poetas abordá-lo de forma direta e obscena, sem muitos convencionalismos, e é interessante por seus jogos de duplo sentido, sua sexualidade lasciva e sarcástica, suas alfinetadas contra a hipocrisia da, digamos, “gente séria”, e, finalmente, sua representação da autoridade rural suprema (e muitas vezes cruel) dos donos de propriedade.

Acácio Luiz Santos.

CANÇÕES DE CATULO:

8. A si próprio

Catulo parvo, afasta a estupidez, néscio:
o que perdeste entende que partiu mesmo.

Outrora sobre ti brilharam sóis claros,
quando ias aonde a fêmea a ti guiava,
de nós amada quanto não o será outra. 5
E muitos gozos usufruíste aí co’ ela,
que os desejavas e ela não os desprezava:
decerto sobre ti brilharam sóis claros.

Ora ela não o quer; e, incapaz, cedes.
Nem à evasiva sigas, nem infeliz vivas; 10
resiste com empenho pertinaz: firma!

Menina, vai! Catulo agora está firme,
e a ti não irá buscar, nem te implorar logro.
Ir-te-á doer quando a ti ninguém rogue.
Que vida aguarda a ti, cruel e má fêmea? 15
E quem te irá querer? ou te julgar bela?
a quem irás amar? de quem dirás teu?
a quem irás beijar? a quem morder lábios?

Mas tu, Catulo, permanecerás firme…



49. A Marco Túlio Cícero

Tu, o ― da estirpe de Rômulo ― mais fluente,
ó Marco Túlio, dos de outrora, de agora,
e de ora em diante, que vieram, vêm e virão:
graças máximas Catulo te envia,
envia ele, o pior poeta de todos; 5
tanto é ele o pior poeta de todos,
quanto és tu o melhor jurista de todos.



61. Epitalâmio de Júnia e Mânlio
                   2 - Sem ti, Vênus

Sem ti, Vênus, ninguém colher
prendas pode que boa fa-
ma autorize; porém o po-
de, se o queres. E à deusa, quem
         comparar-se ousaria? 65

E, sem ti, não existe ca-
sa capaz de petizes ter,
que confortem aos pais. Mas po-
de, se o queres. E à deusa, quem
         comparar-se ousaria? 70

Toda terra onde faltem teus
ritos não pode, enfim, prover
guardiões aos confins; mas sim,
se o quiseres. E à deusa, quem
         comparar-se ousaria? 75



73. Do ingrato

Nunca esperes, de alguém, que admita teu merecimento,
tão-pouco julgues que possa tornar-se piedoso.
Tudo é ingrato: o bem-feito, de fato, não rende proveito;
pelo contrário, ainda mais ofende e magoa.
Isso comigo, a quem ninguém mais grave e amargo oprime, 5
que esse, que até então me teve por único amigo.



109. A ela, sua vida

A mim, minha vida, estende um amor prazeroso, que, nosso,
exista entre nós neste instante, e sempre persista.
Deuses! se ela o promete, que seja, então, verdadeiro
e que de ânimo honesto e sincero o diga;
e que a nós se conceda que, por toda a vida, perdure 5
eterno este voto, de terna afeição consagrado.



CANÇÕES DO CACETE:

7. “Quando demando, uma letra se troca”

Quando demando, uma letra se troca; assim, se te debando,
grito: “Debunda, já!” Acalma, e cumpre-me a ordem.



8. “Afastai-vos daqui, matronas”

«Afastai-vos daqui, matronas castas,
é-vos torpe impudicos versos lerdes.»
Mas não dão um tostão e avançam firme:
com certeza conhecem bem e apreciam
com enorme regalo a rôla grande. 5



9. “Indagas por que minha parte obscena”

Indagas por que minha parte obscena está sempre despida?
Inquire por que nenhum deus seu emblema oculta!
Tem o regente do mundo o raio e o ostenta às claras,
e não se furta o tridente ao deus marinho.
Nem Marte oculta a espada com que seu poder se garante; 5
nem esconde Palas a lança no tépido flanco.
Ora, envergonha a Febo portar suas flechas douradas?
sói trazer às ocultas Diana sua aljava?
Ora, sonega Alcides as toras das clavas nodosas?
põe sob a túnica o deus alado sua vara? 10
Vê-se estender Baco a veste à frente do tirso estreito?
ou, com a chama encoberta, a ti, ó Amor, vê-se?
Não se incrimine a mim, pois, trazer sempre exposta a piroca:
se me declina o dardo, estarei desarmado.

Lucrécio: pequena antologia


Eis uma breve antologia de nossa tradução de Lucrécio, em seis trechos retirados, cada um, de um dos seis livros que compõem o monumental Da Natureza das Coisas, que constituirá o primeiro volume do PROJETO POETAS LATINOS. Do Livro 1, o talento bucólico do autor descreve um belo quadro campestre para ilustrar a permanente renovação das coisas. Do Livro 2, esse arguto observador da psique humana capta o espanto dos homens diante de coisas novas e, após se acostumarem a elas, seu consequente desinteresse. Do Livro 3, o tédio de viver, o medo de morrer e a permanente insatisfação que abate aqueles que não perseguem um sentido produtivo para a existência. O Livro 4 termina com uma larga reflexão sobre o amor, focada principalmente em suas ciladas e perigos, para os quais o autor nos alerta. O trecho escolhido recapitula justamente as decepções de quem mergulha de cabeça no amor desvairadamente. A segunda parte do Livro 5 trata da vida humana na terra; dela extraímos o trecho em que Lucrécio descreve o surgimento das leis e acordos, condição essencial para o homem poder viver em sociedade de forma razoável. O Livro 6, finalmente, trata dos fenômenos da natureza; dele, extraímos a divertida redução ao absurdo que Lucrécio efetua, contra a crença então popular de que Júpiter disparava os raios para castigar os homens: as perguntas que ele vai fazendo vão pouco a pouco demonstrando o quão insensata é essa crença, e que um simples exame dos fatos permite presumir a existência de leis na natureza que regem os seus fenômenos.

Acácio Luiz Santos.

I,250-264. Da geração e morte das coisas

E cessam as chuvas enfim, tão logo as lançou o pai éter 250
precipitadas no fértil regaço da suave mãe terra.
E as esplêndidas messes despontam e os ramos verdejam
sobre as árvores que se elevam de frutos repletas,
de onde a índole nossa e a das bestas então se alimenta,
― e vemos, por isso, a cidade jocunda florir de crianças 255
e de frondíferas selvas ao regozijar de aves novas;
e fatigadas ovelhas por sobre as ledas pastagens
os corpos lanígeros ’stendem, e a láctea seiva candente
instila das túrgidas tetas, e a prole novata de instáveis
membros feliz se distrai a brincar pelos tenros gramados, 260
inebriadas de leite estreme as mentes noviças.
Todas as coisas jamais, portanto, perecem de todo:
quando de outra uma se alimenta, restaura-a a natura,
que não permite que uma se gere sem a morte de outra.



II,1023-1043(+1029a). Da maravilha das coisas novas

Ora, conforme a vera razão, o ânimo empenha,
que um novo assunto se esforça com ênfase por aos ouvidos
teus chegar e um novo esquema de coisas mostrar-te. 1025
Nada tão fácil existe, porém, que, à primeira vista,
não pareça difícil de crer; e, da mesma maneira,
nem tão grandiosas e maravilhosas são as coisas, de fato,
que a admiração de todos não mingue paulatinamente, 1029
<do que, conforme me lembro, bastantes exemplos notamos.> 1029a
Inicialmente, a coloração clara e pura do céu 1030
e as coisas que ele contém ― passageiras estrelas oniúres,
e além delas, a lua, e o sol de esplêndido lume:
se tudo isso aos mortais fosse inédito e assomasse
de improviso, se subitamente ficasse exposto,
o que, mais que isso, seria julgado enfim maravilhoso, 1035
ou o que, antes disso, as gentes teriam crido menos possível?
Nada, opino: pois isso teria então sido admirável.
Nota no entanto que todos, já fartos de vê-los em excesso,
aos do céu templos lúcidos ora sequer os contemplam.
Cessa portanto de às coisas temer pela sua novidade, 1040
e de afastar a razão de teu ânimo. Com mais agudo
juízo, estuda-as no entanto e, se forem então verdadeiras,
cede a elas; porém, forem falsas, ataca-as sem pena.



III,1053-1075. Da fuga de si mesmo

Caso os homens pudessem ― quando se veem sentindo
fundo no ânimo u’a carga existir, que do peso os fatiga ―
compreender ― por que causas então se produza, e como 1055
conste, qual melas e males, no peito em grã quantidade ―,
a vida jamais passariam como os vemos fazer geralmente,
nunca sabendo o que querem de fato e sempre buscando
ansiosos mudar de lugar como se isso os livrasse do ônus.
E esse que sai amiúde de seus palácios afora, 1060
aborrecido de em casa ficar, a eles súbito torna,
já que, lá fora, em nada se sente melhor do que antes.
Precipitado, à vila ele corre, atiçando os garranos,
como se fosse apagar, em sua casa, uns tetos em brasa.
Mas, atingido o limiar de sua vila, num instante boceja, 1065
ou se entrega ao sono, buscando alívio no oblívio,
ou se despede abrupto e à urbe retorna a revê-la.
Assim, cada um de si mesmo se afasta; porém, se percebe
que não se pode escapar de si próprio, forçado a aturar-se,
odeia tudo isso, que, enfermo, não atina co’ a causa da doença. 1070
Pois, se sabida, deixados de lado os outros assuntos,
procurar-se-ia primeiro estudar a natura das coisas,
já que é da eternidade, e não de uma única hora,
o estado de que provém tudo, e que aos mortais de toda
época cabe viver todo o evo que resta até a morte. 1075



IV,1121-1140. Consequências maléficas do amor

A isso acrescenta que às forças esgotam e de esforços perecem;
a isso acrescenta que, ao aceno de outrem, derrete-se a idade;
e os deveres relaxam e a reputação se descuida; 1124
e em babilônios tapetes se gasta inteira a fortuna; 1123
e aos pés mimoseiam unguentos e belas sandálias siciônias, 1125
e, com esmero, esmeraldas imensas de brilho esverdeado
são incrustradas em ouro; e o vaso marinh’ se consome,
assídua e fatigadamente, bebendo-se os suores de Vênus.
Vão-se os bens bem adquiridos dos pais em diademas e mitras,
e se convertem, às vezes, em pala alindésia e ceósia. 1130
Belos banquetes, notáveis de víveres e dec’rações,
jogos, cortejos de taças, unguentos, coroas, grinaldas ―
tudo em vão, que, da fonte de inesgotáveis delícias,
algo de amargo goteja e, das flores, as dores se exalam:
ou quando acaso o ânimo, enfim cônscio, se arrepende 1135
de um evo gasto em inércia e desperdiçado em orgias;
ou porque uma palavra ambígua, lançada ao partir-se,
no coração deixa um fixo desejo de fogo ardendo;
ou que suspeita de ver atirados olhares a outro
e julga que vê em seu vulto um vestígio de burla perpétuo. 1140



V,1136-1160. Da instituição das leis

Pois e depois, tombados os reis, jazia abatida
a majestade antiga dos tronos e cetros soberbos
e o insigne emblema nas testas reais maculado
sob as pisadas do vulgo plangia sua grande honraria,
pois com volúpia esmagavam agora o que antes temiam. 1140
Eram rendidas as coisas, assim, em suprema mixórdia,
enquanto buscavam tomar o império e a soberania.
E, finalmente, aprendeu-se depois a magistratura
e o direito se constituiu para as leis se observarem,
pois a espécie humana, exausta da vida violenta, 1145
enfraquecia de inimizades; e, espontaneamente,
sub˙meteu-se portanto às leis e à estrita justiça;
que antes alguém, pela ira tomado, buscava medidas
bem mais cruéis do que ora permitem as leis razoáveis,
’té que da vida em raivosa vingança enfim se cansaram. 1150
Logo, o medo das penas macula os prêmios da vida,
pois a injúria e a violência enredam aqueles que as lançam
e finalmente terminam por se reverter contra eles.
Tão-pouco é fácil passar uma plácida e calma existência
a quem viola acordos e pactos de paz com seus atos. 1155
Bem que pareça enganar as estirpes humana e divina,
nunca existe a certeza de, ao mal, ocultar para sempre.
E dizem que muitos, amiúde, falando durante o sono
ou delirando de doença, acabaram enfim por trair-se
e revelaram seus atos malvados, há tempos ocultos. 1160



VI,387-422. Contra serem os raios obras de Júpiter

Mas, se são Júpiter, e demais deuses, os que aos fulgentes
templos celestes com ruído terrífico então estremecem,
e qualquer um deles o fogo arremessa aonde deseje:
por que, aos que um crime hediondo não é caso de repug˙nância, 390
um ferimento fatal com o raio não fazem, que exale
chamas do peito permeado (aos mortais, uma amarga lição!),
e, ao invés disso, aquele que nada de torpe jamais consumou,
ora s’ consome em chamas, embora inocente, apanhado
subitamente do fogo e do turbilhão celeste? 395
e por que locais isolados atingem, atirando a esmo?
acaso exercitam o braço, ou dos músculos testam a força?
por que permitem o dardo paterno ser desperdiçado?
não seria melhor contra o ímpio inimigo usá-lo?
por que jamais, quando límpido o céu inteiro se encontra, 400
Júpiter torra a terra com raio e rugido intenso?
ou ele aguarda o monte de nuvens reunir-se abaixo
para descer até elas e, assim, atirar mais de perto?
e por que razão o arremessa ao mar? aborrecem-no os peixes,
ou, vagamente, as vagas e os líquidos campos flotantes? 405
se, mesmo a esmo, ele quer que evitemos o golpe do raio,
por que evita que nós o notemos quando ele os dispara?
mas se deseja atacar quando estamos incautos do fogo,
por que estrondeia tamanho alarido, que a nós nos avisa,
e trevas, e frêmito, e horrível rugido, antes disso, instiga? 410
e como consegues tu crer que ele, a um tempo, de muitas partes,
raios dispare? ou ousas suster que jamais ocorreu ―
muitos golpes, em várias partes, num instante caírem?
(Não só ocorreu com frequência, mas é necessário que ocorra,
pois como a chuva costuma cair em diversas regiões, 415
devem os raios cair a um tempo e, também, em profusão.)
e enfim, por que ao próprio templo augusto derruba com gosto,
e aos sítios excelsos dos deuses não cessa de arriar com o raio,
e quebra as bem feitas imagens marmóreas, dos deuses e suas,
e, com violenta pancada, arruína o ícone honrado? 420
por que, em geral, os locais elevados ataca e, além disso,
muitos vestígios ígneos notamos nos cumes dos montes?

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Feliz 2019!


Com muita alegria desejo a todos os leitores e seguidores do blog um feliz 2019, com saúde, coragem, sabedoria e muitas bem-aventuranças e grandes realizações.

Neste início de ano estaremos oferecendo ao leitor do Projeto Poetas Latinos mais uma pequena amostra poética dos dois primeiros autores programados para edição: Lucrécio e Catulo. Como sempre, ficamos gratos desde já pelo interesse e apoio de todos.

Acácio.

domingo, 30 de dezembro de 2018

Mensagem de fim de ano


Em nome da Cyclicus Editorial, encaminho a todos os leitores e seguidores do blog PROJETO POETAS LATINOS meus votos de saúde, paz e prosperidade desde já, para essas últimas 40 horas do ano corrente, e para o ano novo que já se anuncia. Que 2019 seja um ano abençoado e possa trazer-nos muitas realizações, fazer frutificar as sementes que lançamos, e nos dar coragem para enfrentarmos eventuais obstáculos e seguirmos com passos mais firmes e decididos a cada dia na estrada de nossos sonhos e metas e assim alcançarmos nossos objetivos e desígnios mais desejados.

Feliz Ano Novo a todos!
Acácio.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Os poetas do PROJETO (século I a.C.)


O PROJETO POETAS LATINOS procurará editar, pela primeira vez em nosso idioma, as obras completas que nos chegaram desses talentosos e influentes artistas do verso, no período mais glorioso da literatura latina, em uma série uniforme. A primeira metade do PROJETO irá abranger os seguintes nomes, procurando lançá-los conforme a ordem cronológica de nascimento:

Lucrécio (Titus Lucretius Carus) (c.99 a.C. – c.55 a.C.). O grande poeta filosófico da antiguidade latina deixou-nos o monumental Da Natureza das Coisas, a que, ao que tudo indica, sua morte prematura, por volta dos 44 anos de idade, não permitiu dar um acabamento final.

Catulo (Gaius Valerius Catullus) (c. 84 a.C. – c. 54 a.C.). Esse mestre da arte lírica, também prematuramente falecido, deixou-nos 116 Canções de tema amoroso, satírico, confessional, elegíaco e mitológico, empregando metros variados.

Virgílio (Publius Vergilius Maro) (70 a.C. – 19 a.C.). Legou-nos três obras-primas, em gêneros diferentes: lírico (Éclogas), didático (Geórgicas) e épico (Eneida), tendo todas, em especial a última, exercido grande influência no período classicista moderno.

Horácio (Quintus Horatius Flaccus) (65 a.C. – 8 a.C.). O único poeta latino capaz de rivalizar com Catulo em seu talento excepcional de abordar temas e metros variados, na verdade excedendo-o em versatilidade técnica.

Tibulo (Albius Tibullus) (c. 55 a.C. – 19 a.C.). Notável poeta elegíaco, amoroso e introspectivo, de temperamento suave e sereno.

Propércio (Sextus Propertius) (c. 50/45 a.C. – 15 a.C.). Outro grande poeta elegíaco, passional e cívico.

Ovídio (Publius Ovidius Naso) (43 a.C. – 17/18 d.C.). Com Virgílio e Horácio, um dos três mais influentes poetas latinos no período classicista moderno, do Renascimento ao Barroco. Legou-nos uma obra extensa, que inclui, entre outros, A arte de amar e as famosas Metamorfoses, gigantesca reunião de mitos da antiguidade clássica.

Iremos apresentar ainda, para complementar alguns volumes, obras importantes de autoria anônima, além de autores ditos menores, não pela qualidade, obviamente, mas pela pouquíssima quantidade de poemas ou fragmentos que sobreviveram até os nossos dias. Entre tais obras, destacam-se os Poemas Priápicos (conhecido também como Priapeia); o Apêndice Virgiliano, que consiste em várias obras atribuídas antigamente a Virgílio; alguns poemas esparsos atribuídos antigamente a Ovídio; e os poemas de Sulpícia, uma autora ligada, como Tibulo, ao círculo do patrono das artes Marco Valério Messala Corvino.

Acácio Luiz Santos.